acho que a maioria das pessoas que me conhecem e/ou convivem comigo deve saber que eu sofro de depressão e ansiedade. eu não faço questão de esconder isso de ninguém, pra ser sincera eu quero mais é que todo mundo saiba e não pense de cara que eu sou tão extrovertida por dentro quanto sou por fora. o que muitas pessoas ainda não sabem é como se convive com essas duas doenças, ambas incapacitantes e, por vezes, debilitantes.
tudo começa na sua criação, que eu nem vou entrar em detalhes porque ninguém merece ver um disclaimer sobre quão fucked up é instruir sua criança a ser a melhor em tudo por meio de pressioná-la até que em um certo ponto da vida ela se fode toda tentando atingir seus próprios padrões de excelência e não consegue, descobrindo que é uma pessoa average. average pra caralho.
na puberdade e início da adolescência eu percebi que estar triste era algo contínuo pra mim, tão normal quanto qualquer outra coisa que eu fizesse. as causas, bem, só eu sei, e prefiro não me estender sobre porque isso envolve outras pessoas que podem não gostar de saber que eu sei que o que eles fizeram não foi bom pra mim. nesse meio tempo, até meus 17 anos, eu tentei me matar 15 vezes. sim, isso mesmo. simplesmente porque às vezes eu não sentia como se a vida me preparasse alguma coisa boa ou que fizesse o sofrimento de viver valer a pena.
na adolescência, quando comecei a ter responsabilidades e relacionamentos mais profundos com as pessoas, vendo que tudo que eu fazia só me machucava de um jeito ou de outro, eu procurava escapar das situações reais vivendo em mundos fictícios (livros e jogos). pra aliviar minha ansiedade, eu tentava me isolar de tudo que eu tinha que fazer e evitava pensar nas coisas que querendo ou não iriam me dar mais uma crise de ansiedade. a pior delas foi prestes a começar os vestibulares. você simplesmente não consegue evitar de pensar em todas as possibilidades que sua vida possa trazer, sejam elas boas ou ruins. e nisso eu me prendia por horas, até me dar conta que não conseguia fazer o que deveria fazer porque eu ficava em crise deitada na cama sem conseguir me mexer pensando em como seria o futuro. mas não é simplesmente pensar no futuro, como qualquer pessoa normal: é pensar obsessivamente, a ponto de te incapacitar de fazer qualquer coisa, te imobilizar, te prender naquela posição e só te libertar quando seu cérebro cansar de se esgotar e pedir redenção.
sendo uma pessoa sensível demais, tudo que acontecia na minha vida parecia me afetar mais do que deveria, então qualquer coisa era capaz de me deixar mal e sem esperança. a minha impressão torpe sobre todas as outras pessoas do universo é que elas não prestam e que depois da intimidade elas impreterivelmente vão fazer alguma coisa que me machuque, que isso é só questão de tempo. paranoia? sei lá, talvez só ceticismo. nisso, eu tinha crises depressivas absurdas, eu ia pra escola igual um zumbi e minha única vontade era voltar pro conforto do meu quarto pra poder sofrer em paz. durante o período da faculdade, sair de casa era um sacrifício, literalmente, porque eu voltava pra república e chorava horrores.
eu não me sinto à vontade perto de outras pessoas, especialmente quando você tá numa descida na montanha russa emocional. eu sempre acho que elas estão me julgando, que eu sou inapropriada pra todos os tipos de ocasiões, que as pessoas me acham idiota, babaca e desprezível. nisso, ou eu tento fazer uma boa imagem de mim mesma ou eu simplesmente meto o foda-se e depois fico remoendo as possíveis deduções das pessoas com quem tive contato. em momentos mais críticos da depressão, a presença de outras pessoas não só me deixava extremamente confortável como também me dava sintomas físicos de pânico, como suar frio, falta de ar, taquicardia, etc.
basicamente a gente sai de casa pra se desesperar, volta pra casa pra se desesperar. quando você tá em crise, não tem escapatória, a não ser que você tire a motivação de dentro do seu......... coração e consiga subverter sua crise. isso só acontece depois de algum tempo sofrendo, pra ser honesta. quando você volta a se recuperar, a ficar bem, mesmo nesses momentos onde supostamente você deveria se sentir melhor, feliz, energizado, bem, a realidade não é assim. a gente sabe que é temporário, a gente sabe que depois de uma grande subida tem uma grande queda e ao invés de aproveitar o que tem de legal nesses momentos de subida, a gente fica pensando obsessivamente sobre a próxima queda. até que a gente cai, certo? "mas todo mundo tem altos e baixos na vida, isso não é justificativa pra depressão" a diferença é que as pessoas que não sofrem de doença alguma não vão sentir tanto quanto um depressivo, que tem lidado a vida inteira com a merda que é estar preso na própria mente. não vale nem a pena comparar, pra ser sincera.
"vocês gostam de se vitimizar e se sentem especiais por isso" sim, eu adorei ter nascido assim. é um puta orgulho do caralho me sentir um lixo todo dia e acordar querendo morrer. é literalmente tudo que eu sempre sonhei pra minha vida: uma doença que me incapacita de viver direito, que me prende em coisas absurdas e idiotas que nem mereciam minha atenção, saber que vai ser assim pra sempre e de quebra me sentir pior ainda por ser fraca demais pra sair disso de vez, como se houvesse essa possibilidade.
talvez a pior parte da depressão seja a área cinza. você não se sente nem feliz, nem triste. você não sente nada. todos os seus prazeres lhe passam despercebidos, todas as decepções também. você simplesmente não sente nada. n a d a. é um vazio, um vazio imenso, uma vontade de morrer misturada com o sentimento de não estar nem tão mal assim pra desejar isso. é horrível. sempre sucede a grande subida ou a grande queda. você não tem energia, não tem disposição e não tem esperança... você simplesmente vai e faz as coisas pela conveniência da obrigação e porque você não pode morrer de fome, mas de resto... nada... a sua única esperança é ainda ter uma única esperança pra poder se segurar na vida.
a melhor característica da pessoa deprimida (diferente da suicida) é que ela é perseverante. ela passa a vida inteira esperando algo legal acontecer... aí de repente morre. no fim das contas a gente fica só esperando o alívio da morte pra acabar com a espera. a não ser que você tome remédios, tenha uma rotina legal, tenha disposição e tudo mais, você acaba sem energia, vontade ou motivação de fazer qualquer coisa grande na sua vida. você quer, mas você acha que não consegue. quando você consegue algo, by chance, você começa a perceber que nada vale a pena. nem mesmo o sucesso. que todos os prazeres são passageiros e ínfimos perto de um único relance de paz mental. dispender tempo pra quê? pra depois se dar conta que foi só um outro desperdício dentre o maior, que é a sua própria vida? é, eu imaginei.
não é nem como se odiasse a vida, simplesmente não vejo sentido nela. não vejo sentido em fazer nada. eu faço pela conveniência e porque alguns objetivos talvez tragam uma situação melhor pra mim e me façam sentir melhor caso alcançados. como eu disse, é persistência. pura e simplesmente. você fica lá batendo na tecla que é viver, overthinking tudo que puder, com as suas paranoias e decepções constantes, até você morrer e, lá do além, quem sabe, se dar conta que definitivamente não valeu a pena.
ps: escrevi sem revisar
ps2: to realmente cagando pras consequências do post scriptum acima
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