quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

uma engenheira química que nunca será

eu havia decidido, há algum tempo, não falar sobre isso. simplesmente deixar evaporar o meu ano de 2015. o motivo da minha omissão para com as pessoas que poderiam (ou não) se interessar pelo que aconteceu em lorena no ano passado foi o trauma que eu passei em falhar grandemente na maioria dos aspectos da minha vida. pois, veja, se você me conhece há algum tempo, deve ter uma ideia de que eu era a pessoa que sempre se dava bem em tudo. achei que me daria bem no que era o meu suposto sonho, mas foi muito pior que isso. mil vezes.
no começo, bem, a excitação de ter passado na melhor universidade da américa latina (sic) superava qualquer insegurança. o êxtase de finalmente ter saído da casa de minha mãe e ter a oportunidade de ser independente estava acima de qualquer coisa. eu fiz bastante merda nesse tempo também, não vou mentir. coisas das quais eu não exatamente me arrependo, mas das quais eu me lamento bastante... 
a falta de responsabilidade no primeiro semestre em que eu baguncei minha vida acadêmica, emocional, minha saúde... não sei dizer se foi pelo torpor da alegria de estar lá ou se foi para justamente esquecer que eu estava lá. que eu tinha que fazer coisas. que eu tinha que ser responsável. que eu tinha que assumir todas as minhas falhas. 
não sei se é plausível falar das ~merdas~ que eu fiz, mas digamos que não foram escolhas muito prudentes de curtir o que eu tava passando no momento. gastei muito dinheiro sem pensar, me atraí por pessoas que eu poderia simplesmente desconsiderar e não aproveitei os momentos bons como poderia. na verdade, depois de qualquer interação social proveniente da faculdade, sempre me vinha na cabeça o pensamento de quão vago e superficial era tudo aquilo. as festas, as bebidas, as pessoas que você não conhece mas com quem você tem contato just because. aquilo tudo, depois de feito, me irritava e me deprimia como nada nesse mundo deveria.
as aulas eram extremamente maçantes, eu mal tinha paciência pra ficar lá dentro. a pior parte de lembrar que as aulas eram um saco é o fato de que elas eram o principal motivo de eu estar lá e eu simplesmente não conseguia suportá-las. a princípio eu achei que a usp fosse a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida, pois ela me livrou de todo o estresse de morar onde eu morava e de ter de me preocupar com meu futuro. o problema foi que ela criou em mim desmotivação e desilusão incomparáveis.
vou me ater ao que eu vivi e ao que eu senti: engenharia é uma coisa chata. não apenas chata, é monótona, é robotizada, é intelectualmente massacrante. especialmente o ciclo básico, onde ou você tem o mesmo raciocínio que todo mundo ou você roda. eu, autodidata e claramente confusa pra caramba, rodei. rodei bonito. rodei até nas coisas que eu mais gostava. rodei nas coisas que eu achava que fosse realmente boa. depois de dar com a cara no chão eu percebi por que eu não me dava com o curso: eu não conseguia seguir o pensamento inflexível dos professores. óbvio que não eram todos, mas pelo menos os que eu tinha eram boas demonstrações de arcadismo.
não tendo me identificado com o curso, minha vida social bagunçada e a amorosa um cocô (não entro em detalhes por questões de privacidade, mas vamos supor que você gostasse muito de alguém mas esse alguém não largaria um suposto conforto pra lidar com o caos que você é), eu fui para as férias de julho (já com 10kg a mais, nenhuma autoestima e nenhuma roupa que me servisse) disposta a conversar com meus familiares sobre a mudança de curso. eu estava relutante. eles me aconselharam tentar de novo. dessa vez eu levaria as coisas a sério.
a diferença do primeiro para o segundo semestre foi que basicamente eu cortei as interações pessoais que eu antes fazia (meio forçada, meio esperançosa) e comecei a pensar sobre elas enquanto frequentava as mesmas aulas insuportáveis de sempre. eu parei pra ver que todas as conversas, todas as pessoas conhecidas, todas as festas, tudo que eu fiz foi basicamente em vão. tudo era superficial, forçado, vil. eu não sentia mais nenhum prazer em conviver ou simplesmente sair de casa.
houve um tempo em que cheguei ao ponto de hesitar em sair de casa, e quando eu voltava eu chorava. às vezes eu nem esperava chegar em casa pra chorar, chorava no banheiro da faculdade mesmo. eu sabia que eu deveria estar fazendo muito mais pra honrar o que eu prometi pra minha família e pra mim mesma, mas ver meu fracasso me derrubava todos os dias. todos. os. dias. eu costumava me comparar com as pessoas que estudaram comigo no primeiro semestre e pensava 'se eles podem, como caralhos eu não consigo também?'. eu comecei a ficar paranoica e pensar que qualquer um que estivesse olhando pra mim na verdade estaria me julgando em pensamento. multidões me sufocavam, estar em sala de aula me deixava com tontura e calafrios, a voz das outras pessoas ecoava na minha cabeça e me atormentava até a hora de eu ir dormir. tudo era negativo, uma afronta, um ataque a mim. a convivência se tornou quase insuportável, mas eu segurei a barra pra tentar fazer o fracasso ser menor. tentando imaginar o que os outros pensavam, eu ficava transtornada e não conseguia focar no que era realmente importante, ou nem tão importante assim, mas o motivo pra eu estar lá: as aulas.
o fato de não ter um ombro pra chorar, pessoas pra contar (que eu genuinamente confiasse ou com quem eu poderia falar abertamente sobre tudo que eu queria), tirando um grande amigo que sempre, sempre me socorreu e tentou me alegrar de todos os modos, ah, aquilo me matava. pra passar o tempo eu jogava tibia (hehe) e ficava temporadas sem nem comer alguma coisa. eu vivia de leite com nescau, ovo mexido, misto quente. eu comia uma vez por dia e só comia porque a barriga doía. eu emagreci 10 quilos em um mês. minha saúde foi do exagero positivo ao exagero negativo em questão de 3 meses.
das poucas alegrias que eu posso me orgulhar de falar aqui, posso citar treinar vôlei (o time era realmente maravilhoso, as meninas são muito feras e me acolheram como ninguém mais), a primeira república onde morei, que mesmo não dando certo, eu sempre gostei muito das meninas de lá e o apartamento onde eu vivi até eu ir embora de lorena, onde eu igualmente considero muito as minhas ex companheiras de habitação pela paciência comigo e pelo bom tratamento de sempre, e trabalhar na aiesec, uma organização maravilhosa com muita gente competente lá dentro. basicamente esses elementos eram o que me movia na época. o curso em si já não era mais meu sonho, não chegava nem perto disso, na verdade o curso era meu maior pesadelo. 
quando eu pensava em ir pra faculdade, eu começava a tremer e minha temperatura corporal baixava bastante. talvez por causa do ambiente, mas muito mais por motivos pessoais de não conseguir alcançar o que eu desejava. eu simplesmente não conseguia me sentir confortável ou pertencida, mesmo se eu estivesse fazendo tudo certo. eu sempre me sentia um fracasso, uma vergonha, eu sempre me comparava com as outras pessoas e queria fazer o que elas faziam, já que, se elas podiam, eu também podia.
mas a vida não é assim, né? não é sempre que a gente vai conseguir fazer tudo que a gente quer, especialmente se a gente não foi designado pra fazer alguma coisa. é, eu acredito que a gente tem aptidões e que bater na tecla de fazer outra coisa pode ser muito doloroso sim. a minha resposta ao bater na tecla foi muita ansiedade social e o meu segundo maior surto de depressão. foi difícil estar na minha cabeça naqueles momentos.
no fim, tudo deu certo. eu dei por encerrado o semestre me sentindo melhor comigo mesma depois de tomar um tempo pra pensar na minha vida e refletir o que eu priorizava de verdade. eu finalmente havia decidido que eu merecia uma nova chance. um dia isso ia acontecer comigo, e aconteceu: eu tomei uma puta decisão errada, que foi a de tentar engenharia química. eu me iludi por um nome grande, que na verdade não era nada daquilo que eu imaginava. eu me torturei pra tentar me fazer encaixar onde eu jamais poderia pertencer sem um esforço descomunal de descaracterizar a pessoa que eu sou.
tudo isso só me ensinou, e eu sou eternamente grata, a seguir o que tem a ver comigo, nunca mais fazer algo que eu não me sinta bem fazendo e prezar por pessoas que valham a pena. fora isso, eu desenvolvi o senso de individualidade (se eu não fizer por mim, ninguém mais fará) e de responsabilidade e, nos dias atuais, a experiência traumática foi imprescindível pra que eu estivesse levando uma vida normal, adulta, e, finalmente, feliz (até segunda ordem).
se você tem dúvida sobre o que você tá fazendo, não tenha. procure algo que você tenha certeza que é o que você quer. talvez demore um tempo pra você se encontrar, talvez você escolha errado (mas isso é bom porque dá experiência), talvez você tenha que slow down e parar por algum tempo pra pensar no que você quer... mas não se estupre mentalmente tentando algo onde você não se encaixa. conselho de uma engenheira que nunca será, graças a deus.

Um comentário:

  1. Olá, você não me conhece. Mas te vi algumas vezes no grupo do facebook, acabei entrando no seu perfil e vi o link do seu blog. Te entendo muito bem, também achei que tinha um sonho desde pequena que era cursar Arquitetura e quando passei na faculdade me deparei com o grande caos que era a vida adulta + faculdade. Ninguém prepara a gente para isso. É assustador. Conheci pessoas vazias, que a única vontade era fazer festa e não estudar. Vivi o mesmo inferno que você, e também aguentei dois semestres. E confesso, largar foi ótimo. Quando aceitei que isso que parecia ser meu sonho na realidade era uma ilusão, foi libertador. Demorei dois anos pra conseguir voltar pra faculdade, em outro curso, claro. E olha, estou extremamente feliz e não me arrependo em nada. Não ligue para as pessoas que possivelmente venham a julgar vc (pq vai ter um monte de gente nada a ver falando "ah meu deus vc largou engenharia" "você largou a usp") o importante é estar bem, saudável e feliz.
    Parabéns pela decisão. :D

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